Era mais ou menos assim
ERA MAIS OU MENOS ASSIM...
O tempo vai passando, e as lembranças se
acumulam como a areia sobre as dunas ou como a neve na porta dos nova-iorquinos. Ainda ontem eu
corria pelo cafezal, tomava banho de rio, subia no pé de goiaba, caía nos
capins amarrados por meus irmãos [...] Tantas coisas que eu fazia e não havia
preocupações como desligar a televisão, trancar bem as portas; nada disso, o
mundo era quase perfeito e eu podia sonhar.
O mais legal era sentar à beira do fogão a
lenha, e ouvir as histórias que meu pai contava. Ele tinha um dom especial,
conseguia prender nossa atenção por longas horas. Ouvíamos coisas fantásticas, como
a árvore que nasceu em cima de um burro, as incríveis proezas de Pedro
Malazartes, e a melhor de todas, a princesa que nunca sorria. Era maravilhoso
conhecer tantos personagens e participar do mundo deles, Pedro Malazartes me
ensinou a ser esperta, a bruxa malvada me ensinou a ser corajosa, e a mula sem
cabeça me amedrontava a ponto de eu não conseguir dormir, pois ela me perseguia
a noite toda. É verdade, eu sonhava com monstros horríveis, e teve noites que
eu tive que dormir com meus pais.
Eu cresci em meio a histórias, mato e
diversão, não me lembro de ser triste, nem quando apanhava com a vara de
goiabeira.
Os monstros continuam em minha mente, e eu convivo
bem com eles, uso-os a meu favor.
São tantas lembranças [...] Como esquecer as
lindas bonecas de milho? As ruivas eram minhas favoritas, eu sentia um prazer
imensurável quando via aquele lindo cabelo reluzindo ao sol, tocava as mechas e
imaginava. Meu pai brigava, dizia que estávamos estragando milho à toa,
Para
eu e minhas irmãs, as broncas não surtiam muito efeito, pois não impediam nossa
imaginação, nós preferíamos viver em nosso universo particular, nele, as
bonecas criavam vida, eram lindas princesas, moravam em castelos suntuosos, e
em seus vestidos elegantes, esperavam por um príncipe encantado.
O bom mesmo é que eu era a rainha desse
castelo, e como rainha eu tinha alguns privilégios, além de ser casada com um
rei lindo e pomposo, que era um pedaço de pau, enrolado em um lençol, eu tinha
uma carruagem mágica, que me levava para onde eu quisesse.
Então, eu subia na carruagem e viajava para lugares
que eu só conhecia de ouvir falar, São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza [...] E de
repente eu visitava a lua. Geralmente eu voltava dessas viagem carregando
apenas sonhos, não trazia nenhuma sacola, nenhuma lembrancinha, mas eu voltava
cheia de alegria, e isso é que era bom.
Não sei qual é a alegria de hoje, não vejo as
crianças dizendo que caíram em um poço; e a outra perguntando quem a tira. Não
vejo a delicadeza de uma singela mão passando o anel; e ninguém faz o que seu
mestre manda.
Não critico o avanço tecnológico, acho
importante a evolução e a expansão do conhecimento, mas é legal saber que eu
vivi em uma época em que se podia sonhar; talvez mais sonhar do que realizar o
sonho.
Autora: Vanda da Cunha Valderez
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