Conto (Os Moradores de Cerro Azul)
OS
MORADORES DE CERRO AZUL
Em uma cidade chamada Cerro Azul,
moravam pessoas diferentes. Sim! Eram pessoas muito diferentes! E por quê? Ora,
eles estavam sempre andando daqui pra li, não tinham morada certa, mais
pareciam um bando de pássaros sempre migrando de um canto a outro, verdadeiros
ambulantes sem parada certa. O interessante é que faziam suas mudanças sem
muito planejamento, mudavam em qualquer dia, ou a qualquer momento. Também não
tinham lugar certo para morar. Ora moravam atrás dos montes, ora debaixo de uma
árvore.
Nunca se viu pessoas para mudarem
tanto! Um verdadeiro recorde mundial! Coisa de expressão no cenário nacional O
negócio era tão intenso, que veio um jornalista fazer uma reportagem, sobre o
estranho comportamento das pessoas de Cerro Azul. Logo que chegou à cidade, o
jornalista ficou todo perdido. E por quê?
Ora, ele havia marcada uma
entrevista com um família, quando foi entrevistá-los, eles já haviam mudado, e
o pior, ninguém sabia para onde.
—Sei
lá. Talvez estejam morando no vale, ou quem sabe na montanha. Sei onde estão
não! Falou um homem arrumando a própria mudança.
—E
o senhor já está de mudança? Perguntou o jornalista.
—Pois
é, mudei para cá ontem, mas não gostei daquele pé de jaca atrás da casa.
Um absurdo! faz muita sombra!
—O
senhor vai se mudar por causa de um pé de jaca? não seria mais fácil cortá-lo?
—Ai
moço! Disse o homem colocando uma cama no caminhão. —O senhor não sabe como é
cansativo cortar um pé de jaca, prefiro mudar de casa.
Sem conseguir a entrevista, o
jornalista ficou andando de um canto a outro, mais parecia uma barata tonta.
Enquanto isso, caminhões de mudança passavam de lá pra cá o tempo todo.
São uns insensíveis! Não criam raízes em
nenhum lugar! Pensou o jornalista olhando o movimento bem próximo a ele.
Cansado e sem respostas, o pobre
voltou para o hotel. E qual não foi a surpresa. O dono do hotel havia mudado,
agora o local era habitado por uma família criadora de coelhos. Tinha coelhos
por todo lado, inclusive na cama do jornalista!
—O
que está acontecendo? hoje pela manhã isso aqui era um hotel! E esse monte de
coelhos?
—Oh!
Disse uma moça de cabelos extremamente longos, que segurava um coelhinho no
colo. Agora aqui é um hotel para coelhos, mas você pode ficar se quiser.
—De
jeito nenhum! jamais viverei entre esses bichos peludos! Vou lá no quarto agora
mesmo pegar minhas coisas!
—Então
procure outro lugar para viver! Disse a moça fechando a porta e deixando o
jornalista para fora.
—Ei!
Gritou ele batendo na porta. Eu preciso pegar minhas coisas!
Bom. Não precisa dizer que o
jornalista por diversas vezes mudou de lugar, pois tinha que acompanhar o dono
do hotel. Justo o dono do hotel, que chegou a mudar de lugar duas vezes no
mesmo dia!
Certamente quando eu terminar esta
reportagem serei bastante reconhecido, pois vou conseguir desvendar o
verdadeiro motivo de se mudarem tanto! Pensou o jornalista.
Mas não foi bem isso que aconteceu,
o pobre andava muito ansioso por descobrir o mistério das mudanças, e nem
percebeu que estava fazendo o mesmo que as pessoas de Cerro Azul.
Quanto a investigação para saber o
motivo de mudarem tanto, o jornalista sempre adiava. E por quê? Ora. Hoje ele
morava no centro, amanhã no subúrbio, depois de amanhã em um bairro mais
afastado. Nunca tinha tempo para organizar as pesquisas ou colocar o trabalho
em dia, passava mais tempo arrumando as malas, do que trabalhando. Um verdadeiro
emaranhado de arruma e desarruma, era difícil.
Depois de um tempo, o jornalista parou para
pensar, e chegou a uma conclusão. Até que não é complicado viver como um
andarilho. Morando em vários lugares, conheço várias pessoas, faço muitos
amigos, É até divertido! Pensou arrumando mais uma vez a mala.
Ao chegar a essa brilhante conclusão, ele relaxou,
não quis mais saber de reclamar. Após um ano. O grande acontecimento!
Finalmente a reportagem ficou pronta. A notícia saiu em rede nacional. Lá
estava o jornalista realizando seu grande feito. Eis a reportagem:
Aqui na cidade de Cerro Novo,
realmente tudo é novo todo dia! Sim meus amigos! Tudo é novo todo dia! Todo dia
se muda, todo dia uma casa diferente, um lugar diferente, bom ou ruim, é um
lugar diferente. Eu te convido a morar em Cerro Azul.
Aqui
você nunca terá uma vida sem aventura!
O que se sabe é que o jornalista
acabou casando com a moça dona dos coelhos, e agora passava mais tempo dentro
de casa do que pensando em mudanças. O povo de Cerro Azul estranhou. Como pode
uma pessoa viver tanto tempo em um só lugar?
Mas logo perceberam que na frente da
casa crescia um belo jardim, e ao fundo uma horta repleta de legumes sorria
para o sol. Então os moradores voltaram para suas casas pensativos.
Dias depois, não se ouviu mais
alaridos de mudanças, nem pessoas de lá para cá, cada um ficou no seu canto.
Então a cidade criou cor, ganhou vida, em cada casa havia um jardim, um
cachorro, uma horta.
Sem perceber, o jornalista acabou por
influenciar todos a refletir, e chegaram à conclusão que criar raízes não é de
todo ruim.
Autora:
Vanda Gomes C. V.
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