Conto

"QUASE" QUE NÃO ACONTECE.


Meu nome é Suzi, Suzana para ser mais precisa, eu nasci e cresci em uma cidade interiorana, bom, acho que isso não tem muita importância, cidades são cidades não importam onde estejam situadas. O interessante é o que você faz nessa cidade, as pessoas que você tem ao seu lado.
            Como eu disse. Eu nasci em uma cidade muito pequena, num dia como outro qualquer, uma família nova se mudou para a casa ao lado. Foi então que eu conheci o Symon, escreve Symon e falamos Saimon. Ele tinha sete anos, era branquinho, magrinho, tinha o cabelo escuro e os olhos esverdeados, nos tornamos amigos quase inseparáveis, eu admirava o Symon, ele era muito inteligente, só que muito tímido e um pouco medroso, digo um pouco, para não ser muito realista. Na verdade ele era muito medroso, tinha medo de aranha, barata, sapo, rato... E do escuro? Nossa! Ele morria de medo. Os meninos da rua o chamavam de louva-deus do polo norte, eu o chamava Symon com todas as letras, eu achava esse nome lindo, meio americano, meio underground. Bom, eu não sabia o que significava underground, mas minha mãe usava muito essa palavra para falar da contracultura.  Falando novamente sobre meu novo amigo, em qualquer discussão, eu o defendia com unhas e dentes, uma vez enfrentei dois garotos enormes para impedir um possível assassinato. É claro que saí com alguns arranhões, mas nada que uma garota da minha estirpe não pudesse suportar. Pior que os arranhões que sofri, foi ver a cara de assustado do Symon. De olhos arregalados, ele segurava o caderno sobre o peito e tremia mais que gelatina.
            — Vamos Symon! Falei depois que botei os dois moleques para correr.
            — Você é corajosa! Disse ele me seguindo.
            — Eu sei que sou corajosa, você também é, só falta descobrir seu potencial masculino.
            Enquanto seguíamos pela Rua da Prata, falávamos sobre nosso futuro, Symon queria ser executivo de uma grande empresa internacional, eu queria ser bióloga ou veterinária, ou alguma profissão que cuidasse de animais. Sem nenhuma intenção ele segurou minha mão, paramos em meio a calçada, e por alguns minutos, nós nos olhamos, foi um momento místico, só nosso. Minha mãe dizia que momentos místicos são aqueles em que o céu para nos ouvir, e tudo que desejamos acontece.
            — Eu posso te pedir um favor? Falei olhando a mão pálida apertando levemente a minha.
            — Pode.
— Quando eu crescer, eu quero que você seja o primeiro a me beijar, você topa? Ele riu, parecia surpreso, mas também feliz. Ansiosa esperei a confirmação.
— Vai demorar muito pra você crescer?
— Bom, agora eu tenho oito anos, minha mãe disse que eu posso namorar quando eu tiver quinze, então, falta pouco.
— Não é tão pouco! Teremos que esperar sete anos, que são exatos 2.555 dias, 61. 320 horas, 3.679. 200 minutos e 220.752.000 segundos. Você acha pouco?
— Colocando tantos números parece muito... Falei pensativa. Eu prometo pedir a mamãe para abater um ano. E não precisa fazer a conta novamente!
Enquanto eu não crescia, aproveitávamos para andar de bicicleta, tocar a campainha da senhora Carlota e sair correndo, fazer pinturas no rosto, comer bolo na casa da Dona Carmem, ela fazia o melhor bolo de chocolate da cidade...
Quando eu completei treze anos, eu recebi a notícia mais triste da minha vida, a família do Symon ia embora, eles decidiram ir morar em uma cidade grande, pois queriam que o filho tivesse um estudo à altura, naquela noite eu não dormi, meu amigo iria embora, e meu desejo não se concretizaria. Minha mãe sempre falava que quando queremos muito uma coisa, ela se concretiza, mas dessa vez ela estava errada. A não ser que...
Na manhã seguinte os Teodoro estavam colocando a mudança no caminhão, da minha janela vi o Symon sentado na beira da calçada. Assoviei para que ele viesse a minha casa, mamãe havia saído, meu pai tinha ido trabalhar, seria a chance de colaborar com o universo.
Do portão, eu vi o Symon acenando para mim, ele estava no banco traseiro, corri para segurar a mão dele, mas não deu tempo, o carro lentamente foi subindo a Rua Diamante até virar na Rua da Prata, Eu não era mais uma "BV", nem o Symon também.

Autora: Vanda da Cunha Valderez

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